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13/04/2006 12:53
Relato do dia de sua morte.



Era uma tarde...mas não havia mais diferença para ela entre tardes, noites e dias que vivia em sua reclusa solidão diária desde o dia que lastimando muito foi obrigada a vir a este mundo de mortais .

Mas era uma tarde e ninguém havia em sua casa. Ela pedia, implorava somente mais um pouco de fôlego a alguém que não sabia direito quem era, e quem sabe... algum tipo de paz que nunca tivera em sua vida. E ao mesmo tempo se perguntava: - Pra que? Pra que continuar a viver? E ela perguntava a si mesma que bem isso havia feito a ela mesma até àquele momento.

Lembrara-se de sua vida infeliz. De momentos que achava que havia sido completamente infeliz simplesmente por não saber que o momento posterior era e sempre foi muito pior que o anterior. E desejava voltar... Será? Voltar? Pra que? E o que faria sabendo que naquele momento em que suas forças já não existiam, que ninguém havia no mundo que pudesse salvá-la de tanta dor e angústia poderia ser melhor que o próximo?

Não...Era sua hora, seu momento e naquele tão desejado momento em que a razão não tinha mais poder sobre ela mesma, era único. Tentava lembrar-se das coisas que fizera, dos momentos em que rodopiou saltitante pelos salões da vida, mas não. Nada ira fazê-la mudar de idéia.

Quando criança, havia desejado voltar diversas vezes do lugar de onde havia vindo e havia falado isso para algumas poucas pessoas na Terra, sendo que somente uma havia lhe compreendido e se foi.

E naquela hora, antes de cometer a grande terrível tragédia para os mortais que não entendem que a verdadeira felicidade não está nesta vida, tentava pensar num modo de voltar de algum jeito a um passado menos dorido. Não havia. Não existia, Nunca existiu, Jamais existiria!!!

Tudo naquele momento estava e era muito diferente do que havia sido e por certo o decorrer daquilo seria ainda bem pior e já não havia mais forças. E além de forças, nenhum mero desejo de tê-las de novo.

Quem era aquela mulher?
Uma mulher! Sim! Uma mulher que um dia havia se encontrado, uma mulher que um dia, por poucos momentos sentiu-se plena e agradeceu!. Uma mulher criança desejando um pouco de carinho, ombro, mas sem saber pedir, sem querer se deixar receber. Essa era aquela mulher.

Uma mulher que se perguntava naquele momento que bem poderia ainda trazer ao mundo? E se isso fosse seu propósito, que bem ela poderia sentir consigo mesma? Uma mulher que se perguntava por que? Por que desejavam tanto que ela permanecesse viva se bem nenhum aquilo poderia causar a ela mesma e a outrem?

Tentava então no meio de suas dores descobrir que tipo de dor alguém poderia sentir com sua mera inexistência? Nada era! Nada podia! Nada....

Já havia feito muitos rirem! Já havia feito seus bens, seus males, já havia cumprido sua função , se é que esta mulher teve alguma missão na terra. Mas já havia cumprido seu dever. Não amaria mais, não se deixaria amar! Então , pra que? Era tudo tão simples! –Deixe-me ir porque não sinto mais vontade de viver! , dizia ela! – Sim, um dia, por pouco tempo senti vontade de permanecer aqui, mas isso se foi! E isso me trouxe muita dor, então, deixe –me ir! Implorava!

E Foi pensando em todas essas coisas que descia frente à uma maquina falante, ouvindo Adagio in G menor de Albinoni, que ela tragou sua última dose de whisky. Era o que ela gostava, um 12 anos amargo, puro, sem gelo, sem água, puro, como a dor! A dor que as facadas lhe davam, o peito sangrando e do choro não vinha mais, a dor era muita e ela gritava: -Eu preciso ir, deixe-me ir, já fiz, ja vivi, deixe-me ir agora! E meio a um acorde de dor da musica que ouvia ela fez descer junto à toda sua dor e pranto a dose certa do que jamais a faria sentir aquilo de novo.

Finalmente a paz....seu corpo cai no chão, e ela vive! Vive plena e enlouquecidamente todos os momentos de alegria que não viveu durante seus 30 anos em 1 único segundo. Ela vibra! Vibra e ouve anjos cantando ao seu redor, e ela adentra uma porta e ve uma luz e sorri. Como pode, ela pensava, em tão poucos segundos tanta dor se transformar em alívio. Alívio eterno. E ela ve um trono majestoso, iluminado e grande. A glória estava ali. Ninguém pode falar em glória quando nunca a conheceu, mas ela estava ali e diante daquele grande trono, uma presença súbita, saudosa de tantos anos a contemplava.

Sentiu-se envergonhada. Sentiu saudades, alegria, um misto de sentimentos por aquele Ser que há muito desejava rever! E uma coisa somente ela conseguiu fazer: Ajoelhar-se diante daquele trono como nunca fizera em toda sua vida com nenhum mortal da terra que havia deixado e disse em voz baixa, quase murmurando:

- Pai, se pequei, perdoa-me, mas fiz somente o que havia lhe pedido desde o dia que o Senhor me colocou naquele lugar:- Voltei ao lugar de onde não estava ainda preparada para sair!

Por: Marcela Melo em 11 de abril de 2006.


enviada por Marcela






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